terça-feira, fevereiro 07, 2006

COCACOLA fazendo esCOLA, com COCA...

Indígenas produzem refrigerante de coca.

Produtos alimentícios fabricados na Colômbia usando a folha da coca como matéria-prima mostram que a planta pode ser lucrativa de maneira legal
Um grupo de indígenas colombianos lançou no fim de semana, numa festa tradicional da comunidade, a Coca-Sek, refrigerante à base de folhas da coca, numa iniciativa que esperam servir para combater a demonização dos produtos feitos com a planta e para dar novo enfoque à luta mundial contra os narcóticos produzidos com essa planta. A bebida energética, de cor amarelada e sabor adocicado, foi apresentada oficialmente na sexta-feira, no município de Inzá, 700 quilômetros a sudoeste de Bogotá.Pretendemos “abrir um nicho no mercado competitivo”, declarou David Curtidor, líder do projeto desenvolvido pelos índios de Nasa (etnia Paéz), do departamento de Cauca, com a finalidade de recuperar o uso ancestral da coca com fins terapêuticos, alimentares e ritualísticos.Outra comunidade já conseguiu comercializar certos produtos à base da folha de coca, como chá, biscoitos, vegetais cristalizados e até um aperitivo que chamam de vinho de coca. Os pequenos empresários os consideram parte de um processo alternativo de recuperação e proteção do patrimônio cultural dos povos colombianos. Além de vendê-los em supermercados da capital do país, Bogotá, conseguiram exportar parte de sua modesta produção.Cerca de 200 caixas de chá são vendidas mensalmente na França, Canadá, Espanha e Venezuela. Esse reduzido número de unidades se deve ao fato de que “o único que pode comercializar legalmente os produtos coca no mundo é a Coca-Cola”, explica Curtidor.Após seis anos de tentativas e erros para definir a fórmula da nova bebida, os indígenas decidiram lançar o refrigerante para desafiar, de sua cultura autóctone, os costumes do mundo globalizado. “É uma iniciativa de paz por parte da comunidade indígena”, garante a mulher de Curtidor, Fabiola Piñacué, uma Nasa que estudou ciência política e foi prefeita do povoado de Belalcázar, onde fica sua comunidade. Junto com eles, 16 pessoas trabalham na fábrica onde se processam os produtos. Mas outras 3 mil se beneficiam da venda de sua produção de folha de coca.
PREÇO ESTÁVEL “Nós compramos a produção de folhas dessas pessoas a um preço mais caro que os narcotraficantes e, além disso, mantemos o preço estável”, afirma Curtidor. Ele lembra que, a princípio, a polícia fazia batidas em sua casa e os acusava de tráfico por armazenar folhas de coca.Sua mulher acha que esse caminho de reivindicar os usos não-ilícitos da coca é uma forma mais inteligente de combater o tráfico de drogas do que as fumigações e a repressão, como as que os Estados Unidos realizam para destruir os plantios. “É absurdo. Se acabarmos com a folha de coca, acaba a nossa cultura indígena. Um povo sem coca é um povo morto”, diz Curtidor. Para ele, em muitas comunidades aborígenes do Sul da Colômbia o vegetal ainda é usado como moeda de troca.Curtidor e Fabiola estão otimistas em relação à acolhida que a bebida terá não só entre suas comunidades, mas em outras regiões do país, para onde planejam estender a venda uma vez superados os problemas iniciais de financiamento, que, no momento, limitam a produção a 5 mil garrafas. “Queremos agora conseguir orçamento para comprar veículos para transportar nossos produtos e lugares para começar a cultivar nós mesmos as plantas de coca”, ele conclui
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Fonte: Mauricio Duenas/ AFP