terça-feira, novembro 22, 2005

Imprensa Brasileira...UMA VERGONHA!!!

REFRIGERANTES E CONSCIÊNCIAS

Por Marcelo Salles

Uma das vantagens de trabalhar com mídia alternativa é que nela não estamos sujeitos aos caprichos do tempo. Ou melhor, não estamos sujeitos aos caprichos da velocidade elevada à enésima potência - em outras palavras, não estamos submetidos ao constante exercício da imaginação sobre o que tem ou o que não tem o jornal concorrente. Até porque não enxergamos nossos colegas alternativos (nem os outros) como concorrentes, e sim como cooperadores do objetivo primeiro que rege (ou deveria reger) a Comunicação Social: informar com qualidade, sem interesses outros que não o receptor da mensagem.
No início deste novembro acinzentado chegou à minha caixa de mensagens um laudo do Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal, que atesta o seguinte: "O refrigerante Coca-Cola utiliza folhas de coca em sua fabricação". O documento é de 22 de setembro de 2005 e está assinado pelos peritos criminais Octavio Brandão Caldas Netto, Felipe Gonçalves Murga e Adriano Otávio Maldaner.
A Polícia Federal atendeu a uma solicitação feita pela Câmara dos Deputados em 9 de novembro de 2004, pedindo esclarecimentos sobre o "extrato vegetal" importado pela Recofarma/Coca-Cola. Alegando sigilo industrial, a empresa nunca havia permitido, até então, que as autoridades brasileiras tivessem acesso aos ingredientes do refrigerante, que vende, segundo a própria Coca-Cola, cerca de 8 litros por segundo em todo o mundo.
Entre as oito questões apresentadas aos peritos, temos: "O 'Extrato vegetal' importado pela empresa Recofarma/Coca-Cola Indústria Ltda, ou representantes da empresa norte-americana Stepan Chenical Company, é derivado da folha de coca?" A resposta, depois de quase um ano, veio assim: "Sim, segundo os dados publicados na literatura científica (e.g Robert L. Dupont, Jr., M.D. - Drogas: uma luta sem trégua), em monografias sobre cocaína (e.g José Renan Rocha Ribeiro - Cocaína da origem à distribuição) e na apostila de Leopoldo OREPESA (material reservado) de cursos ministrados pela Drug Enforcement Administration (DEA/E.U.A), as folhas de coca provenientes do vegetal cientificamente denominado Erytroxylum novagranatense, variedade truxillensi, cultivada no Peru, são utilizadas como matéria-prima na fabricação do extrato vegetal a partir do qual é fabricado o refrigerante coca-cola.
Não pensem os caros leitores que este material é exclusividade do Fazendo Media ou de outros veículos alternativos, como o jornal Brasil de Fato, que publicou matéria sobre o tema na edição da semana passada. Nada menos que cinco mil e quinhentos jornalistas de todo o país receberam essa informação, mas não a publicaram. Ou não puderam publicar.
A situação é constrangedora: tem-se a maior empresa de refrigerantes do mundo e descobre-se que seu produto contém folhas de coca. Para piorar a situação, esse ingrediente é proibido pela lei brasileira. Numa extensão do raciocínio, temos que o consumidor brasileiro está sendo terrivelmente enganado pela empresa há décadas, e ingerindo um produto que provavelmente danifica seu organismo. Para ser minimamente justa com a gravidade dos fatos, uma mídia efetivamente comprometida com o interesse público deveria anunciar em manchetes durante pelo menos uma semana seguida este escândalo.
Seria casual o aumento significativo dos anúncios da Coca-Cola em jornais e revistas (não comento sobre a televisão porque tenho visto cada vez menos) nos últimos dois meses? Sabemos que não. Mas nem por isso deixa de ser sempre triste constatar que anúncios publicitários se transformaram em moeda de troca, vendendo e comprando um pouco de tudo, de refrigerantes a consciências.

Fonte: Fazendo Média