quinta-feira, março 17, 2005

Se não resolvem aqui...

VÍTIMA DE ESPIONAGEM, DOLLY PROCESSA COCA-COLA NA MATRIZ, NOS EUA

Multinacional americana contratou Kroll para monitorar concorrente nacional. Prossegue investigação da PF que descobriu que ministros e parlamentares também foram alvos de
escuta ilegal neste caso.

SÃO PAULO, 17 DE MARÇOA Dolly Refrigerantes anuncia que está pronto o processo e deverá ingressar nos próximos dias na corte dos Estados Unidos, com ampla ação contra a Coca-Cola, acusando a multinacional sediada em Atlanta de espionagem, e de ter contratado a outra multinacional americana Kroll Associates para isso. Para Laerte Codonho, presidente da Dolly, e que há um ano e meio vem acusando a Coca-Cola em todas as instâncias administrativas e judiciais do país, essa ação nos Estados Unidos deverá ter trâmite e julgamento mais rápido. “Há uma legislação americana precisa que condena e proíbe espionagem, além de regular a ação dos excutivos em solo estrangeiro”, informa, referindo-se à Foreign Corrupt Pratices Act (Lei norte americana antipráticas corruptas no exterior).O assunto foi noticiado hoje com destaque por O Estado de S. Paulo, em seu Caderno Economia.Desde agosto de 2003, com base em ampla documentação, a Dolly acusa a Coca-Cola de concorrência desleal, abuso do poder econômico e práticas criminosas, na execução de um plano para destruí-la e tirá-la dos maiores mercados nacionais, São Paulo e Rio, onde atua com o seu principal produto, o Guaraná Dolly. O caso vem se desenrolando com uma série de revelações públicas e que, surpreendentemente, continuam ignoradas pelo governo brasileiro e outras autoridades. Entre elas, a prática pela multinacional de elisão e sonegação fiscal, além de venda à população de um produto jamais analisado, embora sob forte suspeita de conter derivados de folhas de coca em sua composição (extrato vegetal ou mercadoria número 5), o que é terminantemente proibido pela legislação brasileira.

KROLL: AÇÕES ILEGAIS E ESPIONAGEM DE AUTORIDADES E PARLAMENTARES
Fontes da Polícia Federal, que continuam empreendendo rigorosas investigações sobre as atividades ilegais da Kroll no Brasil, como no caso envolvendo a Brasil Telecom e o Banco Opportunity, informam que quando descobertos seus métodos em 2004, na Operação Chacal, era a Dolly Refrigerantes a maior investigada em curso. O contrato - R$ 250 mil mensais, mais despesas – feito pela Coca-Cola e que teria sido assinado por seu atual presidente no Brasil, o americano Brian Smith, previa o uso de todas as formas ilegais de “monitoramento”, eufemismo que utilizam para descrever a atividade de espionagem que executam: escutas ilegais, grampos em correspondências, acompanhamento 24 hs e perseguição, entre outros. Parlamentares e autoridades federais, incluindo ministros, também teriam sido visados nesse caso, que é particularmente ainda mais grave.

BRIAN SMITH, LOBISTAS, ASSESSORES: BYE BYE BRAZIL?
Nos últimos dias o mercado vem comentando abertamente a saída eminente do atual presidente da Coca-Cola no Brasil, Brian Smith, e a demissão de vários membros da diretoria da multinacional no país. Vários headhunters apontam para a provável substituição do executivo ainda neste semestre, e vem realizando entrevistas com uma série de candidatos ao cargo. Um dos principais motivos seria o total descontentamento há tempos da matriz com os procedimentos adotados na condução do caso Dolly por Brian, e capitaneados pelos seus lobistas de Brasília, como Jack Correa, e, ainda, pelo ex-presidente, o argentino Jorge Giganti (representantes de Atlanta têm vindo seguida e secretamente ao Brasil para tratar do assunto e conhecer candidatos, e tentando contornar a temível análise do produto, já em mãos do Ministério da Justiça para ser feita). Para recordar, Jorge Dante Giganti é um dos principais acusados por toda a tramóia desleal de concorrência (a Secretaria de Direito Econômico, SDE, já aceitou e investiga as denúncias), e já foi ex-presidente da Coca-Cola na Argentina, Brasil e México, além de presidir a engarrafadora Spal (a maior da América Latina) antes de ser vendida numa estranha operação contábil para a mexicana Femsa. O nome de Giganti aparece ainda nas investigações de espionagem contra a Pepsi-Cola, entre outras acusações. Há meses Giganti “retomou” o poder na multinacional, atuando como “eminência parda” nas decisões que lhe interessam.A demissão de Brian já foi noticiada esta semana em nota publicada pela Revista Dinheiro.

Informações:Marli Gonçalves – jornalista - Mtb 12.037marligo@uol.com.br