domingo, fevereiro 27, 2005

Quando a Folha de São Paulo falava sobre o assunto...

Folha de São Paulohttp://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2503200108.htmSomente para assinantes do UOL25 de março de 2001
DROGAS
País que financia destruição de plantações comprou 99,9% da coca vendida em 1999; demanda da Coca-Cola explica números. EUA são o maior comprador legal de coca
ROGERIO WASSERMANN DA REDAÇÃO
Os EUA, que financiam com centenas de milhões de dólares o combate às plantações de coca nos países andinos, são os maiores importadores legais do produto. Segundo dados da ONU, o país importou, em 1999, 110 mil toneladas de folhas de coca, ou 99,9% de todo o produto legalmente comercializado no mercado internacional.A razão desses números é a demanda para a fabricação de um dos mais conhecidos produtos norte-americanos, a Coca-Cola, vendida em mais de 200 países, que tem em sua fórmula um extrato "descocainizado" de folhas de coca. Ou seja, o refrigerante não tem cocaína, que é retirada por meio de processos químicos.As folhas de coca são importadas da Bolívia e do Peru -no ano passado, só o Peru vendeu coca aos EUA- pela empresa Stepan Company, com sede em Maywood, Nova Jersey, que tem autorização legal da DEA (o departamento de controle de drogas norte-americano) para comprar as folhas e produzir o extrato alimentício vendido à Coca-Cola. A mesma empresa, originalmente chamada Schaefer Alkaloid Works, depois Maywood Chemical Works, produz o aromatizante para a Coca-Cola desde 1903.No processo de extração do alcalóide das folhas, a empresa produz também algumas dezenas de quilos de cocaína. Parte disso é destruída. Outra parte é utilizada em pesquisas médicas ou como anestésico em cirurgias.Oficialmente, tanto a Coca-Cola quanto a Stepan Company se recusam a comentar o assunto."A fórmula da Coca-Cola é um segredo muito bem guardado, sobre o qual a empresa não faz comentários", disse à Folha um porta-voz da empresa.O mesmo ocorre na Stepan Company. "A empresa tem uma política de não comentar esse assunto", afirmou John O"Brien, gerente da fábrica de Nova Jersey.A Folha tentou ouvir também a DEA sobre o assunto, mas, após mais de dois meses de tentativas, com diversos contatos com o setor de Relações Públicas do órgão em Washington, com o representante do órgão no Brasil, Patrick Healy, e com o adido de imprensa da Embaixada dos EUA no Brasil, Terry Davidson, o órgão se limitou a enviar, na semana passada, um e-mail com apenas algumas das informações solicitadas.A Folha pediu informações sobre a empresa (ou as empresas) autorizadas a importar coca e sobre o tipo de utilização do produto nos EUA, mas a DEA informou que são "dados particulares que não podem ser divulgados".Segundo o órgão, a destinação primordial da importação de coca é comercial. "Há um uso muito limitado de folhas de coca para aplicações de pesquisa", relatou o órgão em e-mail enviado à Folha. A reportagem também pediu uma entrevista à DEA, mas não obtivera resposta até anteontem.Fórmula divulgada"Certamente é a demanda da Coca-Cola que explica a grande quantidade de folhas de coca importada anualmente pelos EUA", disse à Folha Mark Pendergrast, autor do livro "Por Deus, pela Pátria e pela Coca-Cola - A História Não-Autorizada do Maior dos Refrigerantes e da Companhia que o Produz", de 1993, no qual ele divulgou uma suposta fórmula do refrigerante."Que eu saiba, a Coca-Cola é a única empresa a utilizar esse extrato de coca na fabricação de seu produto", disse. Pendergrast afirmou ter encontrado as informações sobre a fórmula do produto em documentos achados nos arquivos da própria companhia.Apesar de todo o mistério e proteção, a importação de folhas de coca e a fabricação do extrato aromatizante seguem regras legais e são fortemente controladas pela DEA e pela Jife (Junta Internacional Fiscalizadora de Entorpecentes), órgão ligado à ONU responsável pela aplicação da legislação internacional sobre drogas.A Convenção das Nações Unidas sobre Narcóticos, de 1961, permite o cultivo controlado da coca nos países em que ela já era tradicionalmente cultivada -Bolívia e Peru-, mas condena seu consumo tradicional -mascada ou em forma de infusão- pelas populações indígenas.Em seu artigo 27, porém, a convenção admite a produção de extratos aromatizantes a partir da folha de coca, desde que não contenham alcalóides. "O artigo foi escrito sob medida para a Coca-Cola", afirma Pendergrast, que diz não saber se a empresa fez lobby para a aprovação dessa ressalva na convenção.Sem contradiçãoPara o secretário-geral da Jife, Herbert Schaepe, não existe contradição entre a política norte-americana de combate às drogas e o uso das folhas de coca para a produção do aromatizante usado pela Coca-Cola. "Tudo isso é permitido pelas convenções internacionais, autorizado pelos órgãos competentes dos países e fiscalizado pela Jife", disse Schaepe à Folha. "O que se combate é a produção para fins ilegais."Segundo ele, não existe nenhum impedimento legal para que os países produtores incentivem outros usos legais para a coca ou para qualquer outro produto de uso controlado, mas isso poderia criar dificuldades para as campanhas de prevenção às drogas."Se a coca, a maconha ou a papoula (matéria-prima do ópio e da heroína) se tornam comuns, a acessibilidade traz a sensação de que não são produtos que provocam algum tipo de dano", afirma.

É, mas no Brasil a Lei de entorpecentes em vigor classifica a folha de coca e suas preparações como entorpecente, e sua utilização, sob qualquer forma É PROIBIDA...