sexta-feira, fevereiro 04, 2005

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Decifra-me......
Ou Te Devoro.

Por Stella Braaten

Numa recente viagem ao Sri Lanka, em missão especial de ajuda aos sobreviventes da catástrofe das Tsunamis, entrevistei uma criança nativa que vagava pelo maior acampamento da região e dizia falar inglês.

Sem saber de sua família há dois dias, o garoto de oito anos respondia às minhas perguntas decifrando imagens. Fiquei fascinada com a forma poética de suas expressões que contrastavam tão brutalmente com aquele momento obscuro e ainda muito ameaçador de pós-catástrofe. Mas o que mais me impressionou durante a entrevista foi a linguagem corporal do menino, que culminava com acenos para as respostas negativas e com abanos da cabeça para respostas positivas.

Perto de mim, um repórter de uma grande emissora de TV me observava. Em um momento de pausa na entrevista, ele me interpelou: -"Stella, você não se confunde?..... Nem de vez em quando?" Respondi para ele que, apesar de fascinada com a expressividade do menino, em nenhum momento me fixei nas diferenças entre a cultura dele e a minha. Estava o tempo todo mergulhada em seus imensos olhos negros, que me contavam tudo o que eu queria saber. Tudo, do mesmo jeito que uma criança do meu país me contaria. Naquela hora, só o que importava eram as nossas semelhanças.

Há duas semanas atrás, ao retornar ao Brasil, acessei um blog que acompanho, sobre a interessante jornada da Coca-Cola nos tribunais do mundo, onde existem contribuições de muitas fontes por mim conhecidas, e me deparei com um debate saudável e acirrado sobre autenticidade, ética e livre arbítrio.

A polêmica, que acontecia nas janelas de comentários, se embasava na 'exigência' de alguns participantes em obter respostas para duas perguntas feitas a Cesar Azambuja, que responde pela autoria do blog: 1- O porquê da denúncia à Coca-Cola somente após sua demissão da mesma. 2- O que ele consideraria por ética. Respostas estas as quais Azambuja afirmava já ter fornecido em seu livro "Isso sim é real....", em entrevistas ao programa 100% Brasil na Rede TV, e até mesmo em post no seu blog, sob o título Tempo e Ética.

Independentemente da leitura particular feita por cada um de nós, em cima de veiculações que podem conter as respostas que Cesar Azambuja informa ter dado, de maneira alguma consigo aceitar que a leitura interpretativa (em qualquer nível) caminhe para a extinção. Se tomarmos o livro "Isso sim é real..." como 'carro-chefe' da seqüência dos fatos da trajetória de Azambuja, encontraremos lá dados sobre seu processo trabalhista contra a Coca-Cola, anterior portanto à publicação de seu livro, onde é explicado que a existência do processo se deve à total impossibilidade de acordo com a Coca-Cola, gerando assim, uma necessidade por parte da Justiça brasileira em obter informações mais aprofundadas sobre o relacionamento de Cesar Azambuja com a empresa.

Se Azambuja tivesse obtido um acordo justo com a Coca-Cola, por época de sua demissão da mesma, muito do que é notícia e virou causa nacional no Brasil não teria chegado ao conhecimento da população brasileira. Ele que me corrija se estiver errada, mas se Cesar Azambuja não tivesse iniciado seu processo trabalhista contra a Coca-Cola, Laerte Codonho teria sido a primeira pessoa no Brasil a "peitar" a Coca-Cola de forma contundente.

Se arrumarmos os fatos, este é o resultado em seqüência: a) César Azambuja é demitido de forma irregular; b) César Azambuja tenta acordo por alguns anos com a Coca-Cola; c) Cesar Azambuja entra com processo trabalhista contra a Coca-Cola devido a impossibilidade de acordo com a mesma; d) Na elaboração do processo trabalhista, César Azambuja é, por lei, obrigado a revelar informações mais detalhadas sobre a Coca-Cola; e) Com seu processo na Justiça parado e conseqüentemente sua vida também, Cesar Azambuja escreve um livro relatando sua trajetória na Coca-Cola.

Sabe-se que ingressar em uma empresa como a Coca-Cola, durante o século passado, implicava em vestir a camisa da companhia e fazer parte dela como uma engrenagem. A ética não era responsabilidade do funcionário. À empresa, cabia responder sobre conceitos abstratos. Ao funcionário, cabia obedecer e produzir. Naquela época, nem mesmo a responsabilidade social existia.

O que ficou evidente para mim, e para muita gente que já vi comentar sobre o caso Dolly X Coca-Cola, é que não faria sentido para César Azambuja, assim como não faz para milhares de brasileiros demitidos de multinacionais durante a década de 90, sair por aí denunciando sobre segredos de empresas onde trabalharam. A maioria desses ex-funcionários é de pessoas "profissionalmente éticas". Mesmo porque trabalhar em empresas como a Coca-Cola muitas vezes é interpretado como, no mínimo, ser conivente com atividades ilícitas, e manchar a imagem profissional, significando menos potencial de empregabilidade.

Objetivamente, a Justiça tem poderes para quebrar sigilos , e foi o que aconteceu no caso de Cesar Azambuja. Ele falou sobre a Coca-Cola no momento que foi intimado a falar a verdade. Quanto a sua ética, por aparentemente não ter satisfeito algumas pessoas com sua resposta, assim como o menino sobrevivente em Sri Lanka, ele tem o direito de mostrá-la para os que se interessam por isso de uma forma mais explícita do que por expor verbalmente seus preceitos filosóficos. Imagino que, da mesma forma que o menino do Sri Lanka se expressa por imagens e sua mensagem fica muito mais bonita, Cesar Azambuja esteja muito interessado no momento em se expressar com ações, visto que, desta forma seu discurso ficaria muito mais convincente.

Reféns das restrições da globalização, somos obrigados a aprender tantos idiomas quanto a nossa receita comportar, ao mesmo tempo que esquecemos de preservar nossa capacidade interpessoal de encontrar no semelhante os fatores que, por definição, o elegem como tal. Com isso, embotamos nossa sensibilidade, e às vezes fomentamos atitudes fundamentalistas que nos tiram da sintonia com o nosso ambiente.

O que me passa pela cabeça quando acompanho casos como o de Azambuja, é exatamente questionar o quanto vale a pena, em certas situações, ser "profissionalmente ético", quando mais cedo ou mais tarde pagaremos um preço incalculável por isso. Penso então naqueles que igualmente como Cesar Azambuja saíram de empresas guardando segredos profissionais com potencial de bomba atômica. É justo isso? Certamente que não. Portanto, temos que saber que muitos casos "eticos", são casos para a"Justiça" e muitos casos de "justiça" são casos para o "bom senso", e muitos casos de "bom senso" não são nada éticos.

A famosa síndrome da esfinge se perdeu pela década de 70, durante a Ditadura Militar, onde todos perguntavam, e os que errasem nas respostas que eram pré-determinadas, corriam risco de serem eliminados. Hoje, mundializados, temos que conviver com variedades e multiplicidades em todas as esferas de conhecimento. Temos, principalmente , que respeitar o tempo e as diferenças de cada semelhante, até para poder cumprir com sucesso nossas rotinas mais básicas.

Stella Braaten é jornalista brasileira

fonte: Diplomacy&Business Newsletter 01/03/2005 br