segunda-feira, janeiro 10, 2005

O Discurso Da Compaixão

Tanto no campo político quanto no campo corporativo, o discurso sobre a compaixão conjuntural, na defasagem da compaixão estrutural, redunda muitas vezes em solidariedade oportunista.

A excepcional intensidade de emoções – decepção, ceticismo, compaixão e preocupação global – demonstrados pela tragédia da tsunami asiática, é um exemplo autêntico de discurso de compaixão e humanitarismo, criado e fomentado pelo clima político e pela mídia.

Comparando a ausência deste mesmo tipo de preocupação global com as crises humanitárias em Darfur, no Iraque, em Ruanda, na Palestina; a compaixão por desastres mais instantâneos e naturais, em oposição a devastações pela guerra, pela militarização e pelo genocídio, traz à tona o grau de indecência e as múltiplas personalidades da consciência colonialista.

Desde o final da Guerra Fria, táticas intervencionistas são utilizadas com retórica democrática e de direitos humanos; e.g. quando os Estados Unidos e a Grã Bretanha bombardearam o Afeganistão, simultaneamente despejaram 35.000 kits de alimentação (Reuters, outubro/2001).

Mas a grande ironia em tempos de catástrofe, é acompanhar a solidariedade oportunista das corporações e dos Estados políticos, em oposição às pequenas organizações de cooperativas e pessoas físicas; e. g. A Starbucks está doando dinheiro arrecadado do lucro das plantações de café na Indonésia, e a Coca-Cola está doando água retirada dos mananciais e engarrafada na Índia; para citar somente duas das multinacionais envolvidas na campanha pelas vítimas da tsunami. Enquanto isso, indivíduos de vários cantos do mundo, e pequenas organizações, sem mencionar seus nomes, se unem incitados pela mídia, para doar o que puderem e enviar para a Ásia.

A compaixão é cada vez mais, moralmente e politicamente 'apropriada', do jeito que deveria ser. Por outro lado, dentro deste contexto, o que se tornou 'inapropriada', foi a habilidade de decidir o teor dos textos e de imagens que compõem a informação que chega às populações do mundo inteiro.
O que se torna indesculpável dentro desta escolha, é ser o conceito final dessa informação conseqüência de políticas subsidiadas por governos e empresas transnacionais. Sendo nós, cidadãos de países emergentes, os culpados e possivelmente portadores da síndrome de deficiência de compaixão, por permitir tamanha inversão de direitos.

A compaixão global, não somente pela vida humana, mas também pela dignidade humana, não pode ser alcançada, quando cidadãos salvos de catástrofes como tsunamis, por sorte ou compaixão conjuntural, obtém a graça de voltar para a rotina de suas vidas normais; e isto significa a escravidão nas plantações de produtos agrícolas pertencentes a companhias multinacionais, ou mesmo receber $2 por dia, sem direitos trabalhistas. Na falta da compaixão estrutural, milhares de fazendeiros na Ásia continuam a cometer suicídio por ter seu direito humanitário cassado, enquanto suas mulheres e crianças perambulam em solos arrasados esbarrando em grades, casse-têtes e polícia armada em frente aos portões dos paraísos de mercado.

fonte: http://sevenoaksmag.com/features/45_feat1.html