sexta-feira, novembro 12, 2004

Qual é a dos EUA na Bolívia?

A questão acima não deve ser respondida com generalizações e simplismo, mas,de certa forma, pelo mesmo motivo que os EUA buscaram a guerra contra o Iraque e atacaram o Afeganistão anteriormente. Nos conflitos que presenciamos, as bombas e armas usadas eram em sua grande maioria norte-americanas.

Para ter uma idéia de como a lógica de combate à coca é irracional, hoje se gastam na Bolívia só com refeição dos militares, 15 mil dólares por dia. Com esse valor pode-se construir uma escola diariamente na região do Chapare. Além disso, gastam-se 150 mil dólares extras de salários, sem contar logística, helicópteros etc. Em cada disparo, na média, se desperdiçam 20 dólares. O cálculo é que 1 milhão de dólares/mês, só no Chapare, é gasto como combate a alguns pés de coca. “Em tudo que envolve a droga, gastaram-se 220 milhões de dólares no ano passado”, sustenta o Defensor do Povo. Em suma, o governo norte-americano precisa de guerras, seja contra o que e quem for, para justificar investimentos na indústria bélica.

Por outro lado, o Chapare é uma das zonas de maior biodiversidade da terra e também uma das mais ricas em reservas minerais e gás da Bolívia. Há ainda estudos de que há muito petróleo no Chapare. Mas, segundo o jornalista Luis Gomez da Narconews, dominar territorialmente essa região andina é muito importante do ponto de vista geopolítico para os EUA. “O nascedouro de todos os principais rios da Amazônia está na cordilheira e 2/3 da água doce do mundo encontram-se ali”, revela. Como se sabe, a água em pouco mais de uma década deve ser um bem natural mais valioso que o petróleo.Por isso, os EUA já trabalham com o objetivo de ter presença na região.O prefeito de Vila Tunari, Felipe Cáceres Garcia, faz coro às acusações. Diz que há um poço de petróleo fechado em São Mateus, a 6 quilômetros do centro de Chimoré,outro distrito. Segundo ele não há interesse em explorar o poço agora. “Eles estão esperando os indígenas abandonarem suas terras por conta da violência”, denuncia.Cáceres defende a industrialização da folha da coca e diz que produziria riqueza na região. E também diz que a Coca-Cola compraria a folha local. “De um lado apontam a espada, do outro compram o que você tem.”

Ele diz que a transformação da coca em cocaína é um processo químico e que no país não há tecnologia para isso. Nem caixa de fósforos a Bolívia fabrica. Elas são importadas. E dá outro dado significativo dessa história. “Por conta da erradicação da coca, um sargento dos EUA dá ordens a um coronel boliviano. Por isso Evo Morales (candidato dos cocaleros) venceu as eleições nos quartéis locais”.

Os militares norte-americanos na região são menos de uma centena, mas mandam.“Para fazer um vôo de helicóptero aqui preciso pedir autorização para a embaixada dos EUA. Da parte deles, se querem usar aviões não pedem para ninguém”, diz Cáceres.

A norte-americana George Ann Potter, que reside em Cochabamba, tem denunciado muito o que os entrevistados até aqui afirmaram. Seus relatórios têm sido encaminhados ao Senado dos EUA e já vêm surtindo efeitos. Alguns senadores defendem o corte da ajuda militar à Bolívia por estar sendo usada em violações de direitos humanos.

Por Renato Rovai

Fonte: http://www.revistaforum.com.br/revista/7/cocaleros.htm