quinta-feira, setembro 23, 2004

A Falsa Ética Dos Grandes Negócios

O texto abaixo foi enviado por José Teógenes Abreu.

Todo o negócio que evolui rapidamente e se agiganta o faz de forma bifronte: uma face é a que é divulgada; alicerçada por políticas de marketing, transmite à sociedade uma imagem de empresa comprometida com o social, recolhedora de impostos, geradora de empregos, preocupado com o meio-ambiente e concedente de "vantagens" ao seu corpo funcional. Não raro, essas empresas mantém fundações. Seus balanços assinalam polpudas doações a instituições caritativas ou a ongs que desenvolvem trabalhos junto aos segmentos carentes da sociedade. Ações como essas são decisivas para a melhoria da imagem da empresa e de seus produtos/serviços. Além disso, são sempre compensadas por incentivos fiscais do Estado, o que acaba se transformando em "cortesia com o chapéu dos contribuintes".
A outra face é a face oculta. Tão mais subreptícia quanto for a grandeza do negócio. Maquiagem de balanços; fluxo de informações privilegiadas, repassadas via corrupção de autoridades e agentes do Estado; sonegação de impostos; elisão fiscal; remessa de lucros às matrizes combinada com fraudes fiscais; e agressões ao meio ambiente e à saúde de consumidores são algumas das facetas da atuação marginal dessas grandes empresas. É a criminalidade que denominei em outro artigo de "criminalidade de atacado", gênese de uma série de fatores para a "criminalidade de varejo".1
Essa foi a "mão invisível"2 que Adam Smith, infelizmente, não conseguiu enxergar e que constitui uma via inexorável de atuação dos grandes negócios no mundo. No Brasil, os casos dos bancos Nacional e Econômico, em 95, da Bombril, mais recente; e no exterior, os escândalos da Enron e da WorldCom, estadunidenses, e da francesa Vivendi Universal, para citar os mais alarmantes, são emblemáticos de como os mega-negócios incorporam uma vertente marginal no âmbito do legalismo e da aparente higidez e esterilização das regras do mercado.
O fato é que por mais que as estratégias de publicidade tentem maquiar o lado perverso dos grandes empreendimentos, não existe ética possível na escalada para a conquista do binômio lucro e mega poder. "...o capitalismo neoliberal é a consagração da santa aliança entre os meios de comunicação, o poder econômico e as lideranças políticas corruptas" define bem o professor Luiz Gonzaga Belluzzo.3
Belluzzo cita três instâncias como aliadas: meios de comunicação, poder econômico e político. Vejo mais que isso. Sob o capitalismo neoliberal essas instâncias estão perfeitamente imbricadas. O poder econômico invade a política (desde o "consenso de Washington", a ordem é "chega de intermediários") que, por sua vez, detém as grandes redes de comunicação - quer por dominação direta quer por cooptação, via verbas publicitárias.
Não que defenda que todas as pequenas iniciativas no mundo dos negócios tragam em si a semente da ética. O que sustento é que a atividade empresarial, para ser ética, tem de estar cincunscrita a determinado limite, a partir do qual é impossível a manutenção de critérios para utilização de meios e fins unívocos.
A propósito, a "CPI do Roubo de Cargas" da Câmara dos Deputados, com todas as limitações que soem cercar essas atividades parlamentares, mostrou o que está por trás de boa parte das "generosas" liquidações em grandes cadeias (ops!) de estabelecimentos comerciais...

José Teógenes Abreu é jornalista

1 In A violência do Estado e o Estado de Violência. Publicado no informativo do SINPRF-ES.
2 Termo cunhado pelo economista, teórico do capitalismo liberal, Adam Smith. Segundo ele, o mercado, deixado a suas próprias regras, sem interferência estatal, promoveria seu próprio equilíbrio.
3 In Jogo perigoso. Folha de São Paulo, 07.07.02, caderno B, p. 2.