sábado, agosto 28, 2004

Matéria Com Adriana Antunes

Leia abaixo matéria com Adriana Antunes feita pelo jornalista Gustavo Gantois para a IstoÉ Dinheiro.

Uma secretária do barulho
Ex-funcionária acusa a Coca-Cola
de suborno e será processada por
roubo de documentos
Por Gustavo Gantois

Rio de Janeiro, 19 de agosto. Às 8h35, Neville Isdell, presidente mundial da Coca-Cola, desembarca no Galeão. Cercado por batedores, ele se dirige a Botafogo, onde se encontra com Jack Corrêa, vice-presidente de Relações Governamentais da multinacional no Brasil. Isdell veio discutir uma saída para a disputa que a corporação enfrenta no mercado de refrigerantes com a fábrica de tubaínas Dolly, que acusa a Coca de praticar concorrência desleal. Naquele dia, Isdell soube que a advogada Adriana Antunes, 33 anos, antiga secretária-executiva de Jack Corrêa decidira falar. Agora mudara de lado. Queria acusar a Coca de métodos desleais de lobby junto ao governo e ao Congresso na defesa dos interesses da multinacional. “Testemunhei atos escabrosos”, disse Adriana, em depoimento exclusivo à DINHEIRO. “Sou um dossiê ambulante.”

Entre 1999 e 2003, Adriana foi assistente direta de Jack, um dos mais hábeis executivos de Brasília. Segundo ela, a empresa construiu em sua mansão de lobby
no bairro do Lago Sul um bunker subterrâneo, à prova de som, batizado de Underground Meeting Room, onde Jack Corrêa receberia autoridades públicas para conversas reservadas. Adriana diz ter testemunhado ocasiões em que envelopes com dinheiro teriam sido levados para o bunker. “Conheço vários dos destinatários”, ameaçou. “Era só uma sala de reuniões comum”, rebate Marco Simões, diretor de Comunicação da Coca-Cola. De acordo com Adriana, Jack Corrêa manteria excelentes relações com autoridades do Ministério da Justiça, do Conselho Administrativo de Defesa Econômica e da Receita Federal. “O escritório trata de assuntos governamentais”, argumenta Simões. “Com quem deveríamos nos relacionar?”. Certa vez, em 2002, Adriana teria testemunhado quando a servidora Conceição Pereira, assessora direta do secretário-adjunto da Receita, Ricardo Pinheiro, bateu seu Fiat Tipo. Sem seguro para arcar com o prejuízo, Conceição teria ligado para Jack Corrêa pedindo que pagasse o conserto. “Foi atendida na hora”, diz Adriana. Procurada por DINHEIRO, Conceição não quis se manifestar.

A Coca-Cola, por sua vez, acusa a ex-secretária de ter roubado documentos da empresa – e promete levá-la à Justiça. Adriana não se intimida: fala de governadores que viajaram para os Estados Unidos às custas da Coca-Cola e conta que pelo menos 11 senadores e deputados trabalhariam em prol da empresa no Congresso. “Eles aprovam o que é de interesse e seguram os projetos negativos”, diz. Um desses casos, ocorrido em 2003, seria o do projeto-de-lei que propunha a proibição de refrigerantes em cantinas escolares. “Compraram um deputado para engavetá-lo”, denuncia. A Coca-Cola nega peremptoriamente esse tipo de prática. DINHEIRO teve acesso a um documento de 25 de novembro de 2003, assinado por Jack Corrêa, que mostra uma ordem de pagamento de R$ 120 mil para o lobista Alexandre Paes dos Santos. “Não podemos avalizar a veracidade”, diz o diretor Marco Simões. Adriana queixa-se de que estaria com os telefones grampeados. “Decidi contar o que sei para não virar um arquivo morto.”