domingo, julho 25, 2004

À COCA-COLA SOMENTE

Os camponeses e a coca
Insistindo no fato de que a produção em larga escala da coca é ilegal, o governo boliviano termina impedindo e ameaçando o trabalho de milhares de camponeses que cultivam, ancestralmente, a folha da coca, para variados fins que não o do narcotráfico. Uma resolução da Organização das Nações Unidas (ONU), datada de 1961, proibiu o cultivo e o uso da folha. Proibiu também o costume antigo dos bolivianos de mascar a folha por 25 anos. Autorizada apenas para ser usada para dar sabor, coube à Coca-Cola ficar liberada para utilizar a planta.
Atualmente, o cultivo passou a ser legalizado em uma área de 12.000 hectares – o que é insuficiente para tantos cocaleiros existentes na região, que acabam ocupando territórios considerados ilegais para o plantio. Por conta da forte pressão e com o apoio das forças militares, centenas de camponeses já foram assassinados.
Para as organizações camponesas da Bolívia, "o problema dos cocaleiros, ainda que o governo queira ocultar sob argumentos da luta política ou do narcotráfico, é um problema real dos setores camponeses e do país e, como tal, dever ser resolvido em um diálogo aberto, sob os critérios da dignidade e soberania nacional".

em 17/04/2004
Fonte:
www.adital.org


As barbas andinas
Em 17 de outubro de 2003, o New York Times publicou uma análise clara sobre a crise boliviana, onde o jornal mostrou que, ao contrário do que se prometia, a situação social na Bolívia só se agravou nos últimos anos.
"Os manifestantes indígenas - diz o jornal - podem ser pobres e falar mal e com sotaque o espanhol, mas eles têm uma mensagem poderosa. É esta: não à exportação do gás e outros recursos naturais; não ao livre comércio com os Estados Unidos, não à globalização de nenhuma forma, que não seja a solidariedade entre os povos oprimidos do mundo em desenvolvimento." O que os pobres bolivianos estão pedindo, com o sangue que está sendo derramado nas ruas de sua capital, é que os deixem viver a sua própria vida, exercer a sua própria cultura, retirar da terra o que pode sustentá-los. O consumo milenar do chá de coca nunca os tornou piores nem melhores seres humanos. O que tem sido sua desgraça é a utilização da coca para a produção da cocaína - processo criado pelos "civilizados". O mundo inteiro é consumidor do alcalóide derivado das folhas da Erythroxylon coca, usado para a produção de "coca cola", como a imprensa norte-americana divulgou, quando se anunciou o plano de erradicação da planta, com a exceção das glebas autorizadas a produzi-la para a Coca-Cola. A diferença entre uma garrafa de Coca-Cola, consumida pelos adolescentes, e uma pitada de cocaína é apenas a do tipo de refino da pasta de coca e, evidentemente, da quantidade usada. O uso da coca como droga, mediante o refino e a comercialização, se deve à civilização capitalista, não aos quíchuas e aimaras que sempre consumiram as suas folhas como tônico estimulante.

por Mauro Santayana em 17/10/2003
Fonte: Carta Maior